quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O caso Mesbla e suas lições

Apesar da impopularidade e da carência de registros históricos, a bolsa brasileira possui casos lendários nos quais são ocasionalmente relembrados. Um dos casos mais memoráveis é o da Mesbla, famosa também pela sua ruína no mercado brasileiro.

Relembrar as derrocadas faz parte do aprendizado dos investidores. Estamos cientes de histórias de sucesso como da Ambev, Weg e Alpargatas. Mas devemos conhecer também os casos de empresas que abruptamente sumiram do mapa. Essas empresas são contraexemplos perfeitos que mostram quando as coisas não estão indo bem. E uma das empresas mais famosas desse gênero é a Mesbla.


Quem tem mais de 25 anos provavelmente está lembrado dos comerciais da Mesbla e de seu logotipo caracteristicamente estampado nas suas lojas pela metade da década 90. Entretanto, sua história vem de muito antes disso.
Suas atividades iniciaram em 1912 com o estabelecimento de uma filial da francesa Establissements Mestre & Blatge, cujo negócio era vender peças e acessórios para os automóveis que começavam a circular nas ruas do Rio de Janeiro. A empresa passou a vender carros, máquinas e ferramentas e se expandiu pelo território nacional até tornar-se uma das primeiras empresas a obter registro de capital aberto no Brasil. Na década de 50, entra no ramo de Lojas de Departamentos e nos anos 1980 torna-se líder do comércio varejista não alimentar.

Mesbla: empresa do ano em 1986.

Tragicamente a empresa pediu concordata em 1995, que foi concedida em outubro de 1997. Parte da causa foi devido a mau controle de seu endividamento cada vez crescente. A origem deste passivo foi devido a uma série de prejuízos que a empresa estava entregando e à insuficiência de medidas de saneamento dessa situação. Além disso, a empresa, para suportar seus níveis de vendas, adotou uma política comercial calçada na concessão de créditos, o que era incompatível com sua situação financeira. Para piorar a situação, a conjuntura da época não ajudava devido a alta inflação e aos níveis extremamente altos das taxas de juros.
Houve também momentos que mostraram erros cometidos pela administração da empresa. Em um episódio de 1989, a diretoria passou a estocar uma imensa quantidade e mercadorias, pois acreditavam que o país estava se encaminhando para uma hiperinflação. Esta decisão mostrou-se errada com o fim da inflação no advento do Plano Real.
O comércio passava por profundas mudanças com o surgimento de shoppings, hipermercados, bazares e conglomerados estrangeiros. Antes o cliente precisava se deslocar para o centro da cidade (onde as lojas da Mesbla se encontravam) a fim de encontrar o produto que necessitava. Com a multiplicação do comércio, os produtos passaram a ser ofertados no próprio bairro do cliente. Além disso, a empresa deveria enfrentar a expansão de redes de varejo de eletrodomésticos como Ponto Frio e Casas Bahia.
Outro fator que contribuiu para a derrocada da empresa era a falta de um processo decisório administrativo centralizado. Para se ter uma ideia, a empresa contava com 40 diretores. Com essa quantidade imensa, qualquer medida que objetivava mudanças seria implementada de forma lenta, o que era incompatível com as rápidas mudanças que o comércio passava.

Situação financeira da empresa: fundamentos ou afundamentos?
Em 1996 o patrimônio líquido da empresa era de 618 milhões de reais negativos e a empresa tinha declarado um prejuízo de 590 milhões de reais. Em 1995, o patrimônio era 10 milhões positivos e o prejuízo foi de 255 milhões. Isso mostra que a situação da empresa, que em 1995 já era ruim, em 1996 ficou ainda pior.
Diante da situação caótica acima, em janeiro de 1996 a empresa era avaliada no mercado pelo valor simbólico de 29 milhões de reais. Atualizando este valor pela inflação (IPCA), seria hoje equivalente a uma empresa de 91 milhões de reais.
Em janeiro de 1995 a empresa era avaliada em 266 milhões de reais, ou 1 bilhão de reais nos valores atuais, o equivalente a uma Technos, uma empresa com patrimônio líquido de 440 milhões e lucro de 40 milhões. Isso pode mostrar que a avaliação da empresa era superestimada na época.

O salvador da pátria
Um ponto muito comum nos micos é a chegada de uma pessoa, um banco de investimento ou um fundo com a promessa de resolver todos os problemas da empresa.
No caso da Mesbla este homem era Ricardo Mansur. Seu propósito era unir a Mesbla com a Mappin, a fim de fortalecer o modelo de negócio das empresas.
Outros fatores que alimentavam os últimos suspiros da empresa eram os boatos de um possível empréstimo que poderia ser concedido pelo BNDES ou os boatos de uma possível compra da Mesbla pela americana JC Penney.

Palavras da Administração
Mesmo diante da situação caótica apresentada, a empresa mostrava-se confiante. Em um relatório da administração, a empresa disse que "Este exercício de 1997 ficou marcado pela reestruturação da Companhia tanto na parte administrativa como nas atividades comerciais" e que "Conjuntamente com este árduo processo, alguma medidas importantes foram implementadas visando estabilizar e adaptar a Companhia a uma realidade mais conservadora e com compromisso de crescimento  gradativo e seguro". O referido relatório descreve uma série de medidas que estavam sendo adotadas para tentar recuperar a empresa, principalmente o encerramento e descontinuidade de algumas de suas ramificações.
Por fim, a empresa declarou que "A administração está muito otimista com o desempenho futuro, com vendas crescentes e o retorno gradual, mas constante, dos clientes as lojas Mesbla, mostrando a força da Companhia".

O mercado de ações
O que acontece quando uma empresa está envolvida em um processo falimentar, reestruturação administrativa, boatos de aquisições e queda abrupta nas cotações? O mercado de ações pira nestes acontecimentos, principalmente investidores incautos, que desconhecem a situação financeira da empresa, mas que sonham com a cotação explodindo e voltando aos patamares anteriores. Este comportamento pode ser visualizado através do volume de negociação de suas ações.
Em janeiro de 1995, quando a situação da empresa já não era das melhores, suas ações ordinárias tinham um volume diário em torno de 800 reais e as preferenciais de 60 mil reais. Em 1995, o primeiro dia de negociação das ON foi em 23 de janeiro e das PN em 5 de janeiro.
Em janeiro de 1996, quando "o circo estava pegando fogo", o volume diário das ordinárias saltou para 65 mil reais e as ações preferenciais apresentaram um volume em torno de 150 mil reais. Em 1996, o dia 2 janeiro, primeiro dia útil do ano, já apresentava negociação das ações ON e PN.

A volta dos que já foram
Mesmo muito tempo após sua derrocada, Mesbla ainda representa uma forte marca para o consumidor brasileiro. Em 2009 houve uma tentativa de se criar uma loja virtual com o nome Mesbla, que inicialmente venderia produtos da linha feminina. Infelizmente essa tentativa não vingou.

O que podemos aprender?
Qualquer semelhança dos fatos apresentados nesta postagem com os micos que atualmente rondam na bolsa não são mera coincidência. Uma empresa que está passando por um período extremamente complicado, prejuízos constantes, pedido de falência, reestruturação administrativa, patrimônio líquido negativo, uma administração que já mostrou não ser das melhores, boatos de que será comprada por uma empresa estrangeira, a chegada de alguém que tenta fazer a empresa dar a volta por cima, queda violenta nas cotações, mensagens otimistas da administração e uma marca tradicional é a combinação perfeita para atrair uma legião de pequenos investidores que pensam ter encontrado um caminho rápido e fácil para a fortuna. Esta mesma legião de investidores nunca investiriam um único centavo em uma empresa deste tipo caso ela fosse uma pequeno empreendimento do bairro. Mas por algum motivo obscuro, no mercado de ações isso é completamente ignorado.

Histórias deste tipo sempre se repetem. Empresas problemáticas existiram, existem e existirão. E a história mostra que, acompanhados destas empresas problemáticas, sempre haverá uma nova geração de investidores disposta a aprender velhas lições de mercado.

Veja também:
Seja um pitecofóbico. Fuja dos micos da bolsa!

34 comentários:

  1. Algumas pessoas tentam ganhar dinheiro alugando esses micos, vendendo e torcendo para que eles caiam....

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    1. Sim, há diversas formas de ganhar dinheiro na bolsa. Particularmente prefiro abster de qualquer operação envolvendo micos.
      Abraços

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  2. "sempre haverá uma nova geração de investidores dispostos a aprenderem velhas lições de mercado." fechou esse belo post com chave de ouro AdP !! eu era moleque e vi isso tudo acontecer.... rs Abraços

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  3. ADP,

    Relembrar é viver. Esse também é um dos motivos pelo qual eu fujo de empresas varejistas.

    Abraços.

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    1. Também não sou fã de empresas varejistas, mas prefiro não colocar todas no mesmo saco. Mais vale uma empresa boa em um setor ruim do que uma empresa ruim em um setor bom.
      A única exceção que faço são nos setores de aviação e as empresas abertas do ramo de agricultura. Não enxergo nenhuma que preste, rs.
      Abraços

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    2. IL e AdP, Eu não tenho nada contra varejistas, mas nesta época, com inflação nas nuvens, era bem complicado.

      No Brasil este modelo de lojas de departamento pedeu força, mas nos EUA e Europa ainda é muito forte. recentemente estive na Europa e fiquei impressionado com as lojas do El Corte Inglés. Um verdadeiro shopping com vários andares exclusivos.

      O setor de aviação é tão horrível que acho quase impossível existirem empresas boas neste setor.

      Abraços

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    3. Quebrou muito empresa aqui no Brasil, mas faz parte da seleção natural capitalista. Outras sobreviveram porque conseguiram se adaptar a nova realidade.
      Setor de aviação é o pior de todos, na minha opinião, kkkkkkk.
      Abraços

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  4. Boa matéria AdP.

    Estudar a história nos ajuda no presente. Veja que até hoje estas coisas acontecem: deterioração dos fundamentos, queda de cotação, aumento de volume, e muita gente "entrando pelo cano". OGX é o exemplo mais recente.

    Abraços.

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    1. "Uma empresa que está passando por um período extremamente complicado, prejuízos constantes, pedido de falência, reestruturação administrativa, patrimônio líquido negativo, uma administração que já mostrou não ser das melhores, boatos de que será comprada por uma empresa estrangeira, a chegada de alguém que tenta fazer a empresa dar a volta por cima, queda violenta nas cotações, mensagens otimistas da administração e uma marca tradicional"

      Muitos destes sintomas são comuns na síndrome de mico. Uma que está passando por um momento bastante delicado é a Forjas Taurus. É uma pena. Uma empresa bastante tradicional e que é representante nacional do ramo. Ela está começando a ter os sintomas da síndrome de mico, mas espero que melhore.

      Abraços

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  5. Caro AdP,

    Parabéns pelo blog, excelente post! Aprendendo com os acertos e com os erros.

    Obrigado!

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  6. Lembro da época que ia com meu pai na na Mesbla ou no gigantesco Mappin da Praça Ramos...saudade. A Marabraz comprou a marca Mappin faz alguns anos e tb não deu em nada.
    http://portaldebranding.com/v1/?p=1503
    Ótimo post, Adp!

    Abraço

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    1. Muitas delas sumiram. Mesbla, Mappin, Arapuã, Lojas Brasileiras e outras.

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  7. Muito bom post AdP, me ajudou a tomar decisão quanto à OGX.
    "Um ponto muito comum nos micos é a chegada de uma pessoa, um banco de investimento ou um fundo com a promessa de resolver todos os problemas da empresa."
    Abraços

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    1. Eu estava com esta postagem engavetada faz tempo. Você me motivou a desengavetá-la, rs.
      Abraços

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  8. Muito legal esse post e sempre é bom lembrar os fracassos para evita-los em nossos investimentos.

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    1. Temos que aprender com os exemplos bons e os exemplos ruins.
      Abraços

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  9. Alguém por aí falou assim: A história não se repete, mas rima.

    Só mais um caso dentre tantos q provavelmente ainda veremos por aí.

    []s!

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    1. "A história não se repete, mas rima."
      Excelente frase. E que venham as rimas.
      Abraços

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  10. Lembro do caso da sharp, quebrou muita gente.

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    1. Sharp foi outra. Garanto que deve ter sido um alvoroço a especulação. É uma pena.
      Abraços

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  11. Esse post vai me ajudar a ficar fora de micos!! Vlw!

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    1. Se pelo menos eu conseguir converter um, minha missão estará cumprida, rs.
      Abraços

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  12. Mais um post espetacular.
    Lembro muito bem da Mesbla, mas como eu era pequeno, só tenho as boas lembranças da minha mãe comprando coisas para mim lá haha

    E o bacana é ver que quando as coisas estão ruins, é fácil de verificar no mercado os sinais.
    Empresa que só da prejuízo, uma hora vai para a vala.

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    1. Quando a gente vê uma loja dessas não sabe o que acontece nos bastidores. Lembro-me também das lojas Mesbla. Não tenho do que reclamar, mas os mais fortes sobrevivem, e a Mesbla não foi uma delas.
      Abraços

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  13. Lembro de que quando comecei trabalhar e comprar minhas roupas, lá pelos meus 19 anos, a Mesbla era a loja que eu mais gostava. Como morava no interior ia para a capital só para comprar roupas lá. Depois de um tempo a loja sumiu, fiquei sem saber o motivo. Desde lá fiquei com pé atrás em relação a lojas de departamento, acho um péssimo investimento. Lojas em geral não me atraem, nem mesmo as Americanas que é queridinhas de muitos.

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    1. Rapaz, você tem quantos anos? Pensei que era mais novo, com cerca de 30 anos.
      "Lojas em geral não me atraem."
      Também tenho o pé atrás deste ramo, mesmo assim decidi ser sócio da CGRA3.
      Abraços

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  14. Fala ADP, tudo bom?

    Admiro muito seu blog, parabéns pelo seu trabalho! Minha dúvida é sobre a planilha de rentabilidade. O dinheiro em caixa (resíduo das compras do mês e recebimento de proventos) deve ser somado com o valor atual da carteira de ações para calcularmos a rentabilidade do mês?

    Abraços.

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    1. Exato. Tem que somar o dinheiro em caixa.
      Abraços

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