sábado, 15 de junho de 2013

A empresa perfeita para se investir, segundo Peter Lynch



Sem qualquer dúvida, o livro “O jeito Peter Lynch de investir”, cuja descrição poderá ser vista AQUI, é um dos livros que contribuíram para a montagem de minha estratégia. Nele, Peter Lynch reuniu o que considera como os treze atributos favoráveis mais importantes na hora de selecionar suas empresas. Nesta postagem abordarei um pouco sobre estas treze características. Para cada critério, citarei um trecho do livro, tecerei alguns comentários e tentarei encontrar alguma empresa da bolsa brasileira que o atenda.


Nº 1 – Isso soa enfadonho – ou melhor: ridículo

“A ação perfeita deveria estar associada à empresa perfeita, a empresa perfeita teria de estar engajada em um negócio perfeitamente simples e esse negócio perfeitamente simples deveria ter um nome perfeitamente aborrecido.”

Segundo o autor, um nome ridículo é um atributo favorável. Se uma pessoa tem vergonha de dizer o nome da empresa que investe, provavelmente o mercado também dará um pequeno desconto à empresa.

Como exemplo, ele cita “Automatic Data Processing” como nome tedioso e “Pep Boys – Manny, Moe and Jack” como nome ridículo.

O mercado brasileiro também possui algumas empresas com nome estranho. Vicunha, Fras-le, Sondotecnica, Josapar e Kroton são exemplos. Alguém consegue achar um nome tão ridículo quanto Usina Costa Pinto? E Iochpe-Maxion? Alguém sabe como se pronuncia isso?


Nº 2 – A empresa faz algo enfadonho.

“Eu fico ainda mais empolgado quando uma empresa com um nome tedioso também realiza algo tedioso. Crown, Cork and Seal fabrica latas e tampas de garrafa. O que poderia ser mais enfadonho que isso?”

Empresas que possuem atividades tediosas e repetitivas chamam menos atenção do que empresas que precisam reinventar a roda a todo momento. Como chamam menos atenção, o mercado costuma demorar a percebê-las.

O mercado brasileiro também possui empresas que fazem atividades monótonas.

A Fras-le é a maior fabricante de materiais de fricção do Brasil. Somente eu fiquei com sono de ler isso? Conte-me qual a graça de produzir Sapatas com Lonas Coladas.

E a Ambev? Ela pode ser hoje uma das estrelas da bolsa, mas é outra que possui uma atividade enfadonha. Fabricar cerveja é algo repetitivo e nada inovador.

O que é mais provável? O mercado acompanhar a enfadonha produção de biscoitos, massas e bolos da M. Dias Branco ou apontar seus holofotes para a exploração da camada pré-sal, da Petrobrás?


Nº 3 – A empresa faz algo desagradável

“Melhor que ser apenas enfadonha é uma ação de uma empresa que seja enfadonha e desagradável ao mesmo tempo. Algo que faça as pessoas desdenharem, sentirem náuseas ou se distanciarem como sinal de desagrado é ideal.”

No livro ele citou empresas de recolhimento de resíduos, de limpeza de gordura de restaurantes e de embrulhos de resto de alimento.

Não é fácil achar uma empresa deste tipo no Brasil, até porque temos poucas empresas listadas. A Sansuy produz sistemas para armazenamento de dejeto animal, mas esse é apenas um dentre os seus diversos produtos.

Uma ação que algumas pessoas desdenham e se distanciam como sinal de desagrado é a Souza Cruz, mas não chega ser tanto quanto as citadas pelo autor.


Nº 4 – A empresa é fruto de uma cisão

“Grandes empresas-mãe não querem cindir suas divisões para, mais tarde, vê-las em dificuldades, pois isso traria publicidade embaraçosa, que se refletiria em seus controladores. Dessa forma, as empresas derivadas de cisões normalmente têm bons balanços financeiros e estão bem preparadas para serem bem-sucedidas como entidades independentes.”

Outra situação difícil de encontrar na bolsa brasileira.

Um exemplo que talvez seja aplicado (mesmo assim, em partes) é o término da sociedade entre a Brasilit e a Eternit na década passada. 


Nº 5 – As instituições financeiras não são donas e os analistas não as acompanham

“Se encontrar uma ação que tenha pouca ou nenhuma propriedade nas mãos de instituições, você encontrou uma possível vencedora”.

Esta característica é mais fácil de ser encontrada em empresas menores, que estão longe dos holofotes do mercado. Boa parte das empresas que não está no índice Ibovespa possui pouco ou nenhum acompanhamento dos analistas e das instituições.


Nº 6 – Multiplicam-se os rumores: a empresa está envolvida com lixo tóxico e/ou com a máfia

“Lembram-se das temidas ações de cassinos que agora estão na lista de compra de todos? Os investidores respeitáveis não deveriam tocá-las porque todos os cassinos supostamente pertencem à máfia”.

Não há rumores de empresas brasileiras envolvidas com a máfia ou com lixo tóxico, mas captei o sentido desta frase. Uma característica favorável na hora de se investir é quando tem um rumor podre relacionado a uma empresa. Mas este rumor ainda não está confirmado.

Temos por exemplo, empresas ligadas aos rumores da bolha imobiliária, à proibição do amianto, à desaceleração chinesa e à fragilidade dos bancos pequenos. Lembre-se que os rumores se alteram como tempo. As empresas que provocam o medo hoje poderão ser as disputadas de amanhã.


Nº 7 – Há algo desanimador em relação a isso

“Agora, se há algo que Wall Street preferiria ignorar, além do lixo tóxico, é a morte. E a SCI realiza enterros.”

Nessas horas vemos o quanto o mercado americano é desenvolvido. Empresa de enterros sendo negociada na bolsa? Alguém consegue achar na bolsa brasileira uma empresa que atua em um serviço tão desanimador quanto isso?


Nº 8 – É um setor de atividade sem crescimento

“Muitas pessoas preferem investir em um setor de alto crescimento, no qual há grande agitação. Não é o meu caso. Prefiro investir em um setor com crescimento lento, como o de facas e garfos plásticos, mas apenas no caso de não poder encontrar um setor sem crescimento, como o de funerais. É aqui que são gerados os grandes vencedores.”

Segundo o autor, os setores mais promissores são os setores sem crescimento. Isso porque os setores que estão crescendo chamam a atenção de dezenas de empresas, aumentando a concorrência. No Brasil, por exemplo, quando o setor imobiliário estava indo bem, pipocaram na bolsa diversas empresas construtoras. Entretanto, poucas são as que obtiveram resultados satisfatórios. Agora pegue, por exemplo, o setor de cigarros. É um setor de crescimento negativo. Aos poucos o número de fumantes está caindo, mas veja a performance das empresas deste setor.


Nº 9 – A empresa possui um nicho

“Certamente, ter uma pedreira é muito mais seguro do que ter um negócio de joias. Se já estiver no negócio de joias, você está competindo com outros joalheiros ao longo da cidade, do estado e mesmo do exterior, uma vez que viajantes podem adquiri-las em qualquer parte e trazê-las para casa. Mas caso possua a única pedreira do Brooklyn, você tem um monopólio virtual, além de contar com a proteção adicional da impopularidade do setor de pedreiras.”

Segundo o autor, algumas empresas possuem um nicho, que seria uma vantagem única, o que traz segurança. Ele citou como exemplo empresas como pedreiras ou que operam minas de baixo valor agregado. Como transportar pedras é caro em comparação com o produto, a empresa poderá ter certeza de que não competirá com pedreiras de outros países, o que a torna um monopólio local.

Um bom exemplo de nicho brasileiro são as empresas que obtém concessões rodoviárias. A empresa lucrará enquanto a concessão durar. Os motoristas não tem opção de caminhos alternativos. Opção até tem, mas sai muito mais barato pagar o pedágio. E nenhuma empresa poderá criar uma estrada do lado para fazer competição de preços.


Nº 10 – As pessoas têm de continuar a comprar o produto

“Por que se arriscar em compras de empresas instáveis quando há muitos negócios sólidos à nossa volta?”

É mais seguro investir em empresas que produzem coisas que as pessoas compram constantemente.

Vide a margarina Claybom que a BR FOODS produz. É um produto que faz parte do carrinho de compras mensal de diversas famílias. A empresa não precisa reinventar uma margarina diferente para chamar atenção. É provável que a Claybom de hoje, a de 10 anos atrás e a de 10 anos no futuro sejam quase a mesma coisa, senão iguais. Então a empresa poderá concentrar esforços para cortar custos, diminuir despesas e modernizar seu parque.

Agora compare com a Estrela, fabricante de brinquedos. Normalmente as crianças compram apenas um brinquedo e nada mais. A empresa precisa desenvolver novos brinquedos para chamar a atenção das crianças e dos pais, correndo o risco do novo brinquedo não vingar. Claro que há brinquedos como o jogo de tabuleiro “Monopólio” que existe há décadas, mas quantos “Monopólio” uma família poderá comprar?


Nº 11 – A empresa é usuária de tecnologia

“Em vez de investir em empresas de computadores que lutam para sobreviver em uma guerra infinita de preços, por que não investir em uma empresa que se beneficia da guerra de preços?”

Há uma diferença gritante entre investir em empresas que desenvolvem tecnologias e empresas usuárias de tecnologia.

O mercado tecnológico é predatório e instável. As empresas precisam gastar bastante dinheiro em pesquisa e desenvolvimento para sobreviver. Compare os gigantes da tecnologia da década de 80, com os de 90, com os de 2000 e os de hoje. Em todo o período, somente uma ou outra empresa que permaneceu perto do topo. Estas empresas competem tanto que produzem produtos maravilhosos a preços convidativos. Ruim para elas, melhor para quem compra.

Imagine a eficiência, controle e redução de custos proporcionados a um supermercado após implantar caixas automatizados com leitor de código de barras, integrado a um sistema de controle de estoques. Antigamente quando um supermercado alterava o preço de um produto, aparecia um pelotão de marcadores com uma maquininha que grudava um adesivo indicando o preço em cada produto. Hoje, basta um comando no computador e apenas uma indicação do preço em um local visível, próximo do produto.

E o índice de golpes da época que o cheque era famoso? Os comerciantes não tinham tanta escolha. Se aceitasse o cheque eles vendiam mais, mas recebiam alguns cheques sem fundo. Se não aceitasse cheque, ficavam para trás. Hoje há o sistema de cartão de crédito que imediatamente acusa quando o cliente não possui fundos.

Há diversas empresas que se beneficiam com a tecnologia. Bancos, supermercados e diversas fábricas se tornam mais eficientes após a compra de tecnologia.


Nº 12 – Pessoas que fazem parte da empresa compram suas ações

“Não há melhor dica em relação ao provável sucesso de uma ação do que os membros da própria empresa estarem colocando seu próprio dinheiro no negócio.”

Se os funcionários estão comprando ações da própria empresa, é um provável sinal de que ele está sentindo bons ventos. Melhor ainda é quando os membros da diretoria compram ações da empresa.

Algumas empresas convertem parte do salário de seus diretores através da compra de ações. Assim parte do salário de seus diretores é em dinheiro e parte é em ações, incentivando-os a buscarem melhores resultados. Um exemplo dessa medida no Brasil é a Eternit.


Nº 13 – A empresa está recomprando ações

“Recomprar ações é a forma melhor e mais simples de uma empresa recompensar seus investidores.”

A partir do momento que uma empresa recompra suas ações e as cancela, seus resultados no futuro serão divididos por uma menor quantidade de acionistas. Quando uma empresa anuncia o início de um programa de recompra de ações, muitas vezes o mercado interpreta como um sinal de prosperidade na empresa ou de que a empresa considera suas ações num patamar de preço baixo.

Há várias empresas no mercado de ações brasileiro que poderiam ser citadas. Um exemplo recente é do Banco do Brasil, que anunciou nesta semana um programa de recompra.



E você, conhece alguma empresa brasileira que atenda a algum dos critérios? Ou melhor, você conhece alguma empresa que atenda todos eles? Então deixe seu comentário abaixo!

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17 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. AdP, irei adquirir esse livro, me parece uma boa continuação depois de ter lido o do Buffett e a analise de balanços!
    Como eu to chegando na festa( triste) da bolsa agora, não sei de nenhuma que encaixe nesse perfil, pelo que me parece, o nosso mercado é muito incipiente, logo muita coisa do american way of investing tem que ser adaptado!

    Eu vi vc comentando no blog do Corey que tá desenvolvendo uma ideia de negocio c/ eletrônica e informática, não sei se é isso, mas tem algum tempo que fico observando o potencial da automação residencial, acho que com as novas tecnologias ( Arduino e Raspberry pi) possíveis, um grande mercado é aberto para exploração, antes só "barão" e mansões poderiam ter isso, agora assalariados e pessoas frugais podem ter acesso à essas mordomias tecnológicas.

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    1. Sim, uns 10 anos atrás esses microcontroladores eram caros e tinham uma linguagem difícil. Hoje são bem mais em conta e qualquer linguagem C básica já permitem o desenvolvimento de coisas interessantes. Ficou mais acessível e simples.

      Abraços

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    2. Caro AdP, acho a estratégia em discussão meio descabida. Veja: quase todos os elementos em pauta são de caráter imponderável. Como a gente pode falar em enfadonho, desanimador etc. Peter Lynch pode ter acertado. Como aplicar o que ele diz na nossa rotina. Eu certamente não daria conta. Problemas éticos e morais me deixam sem baliza.Um abraço.

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    3. Não é possível agradar a todos. Se você acha imponderável, paciência.

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  3. Grande texto, Adp.

    Parabéns pelo blog, sempre educativo.O seu trabalho, como sempre, pode ser considerado de utilidade pública!

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  4. Excelente esse livro. Foi um dos que mais gostei =)

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    1. Muito bom. Leio sempre que dá vontade.
      Abraços

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  5. Olá AdP,

    Não li o livro do qual tirou as citações e gostei muito delas, principalmente dos seus exemplos e comentários voltados ao mercado brasileiro, parabéns e espero que continue com essas iniciativas! :)

    Abraços

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    1. Valeu, General, pelo apoio. O livro é muito bom. Recomendo.
      Abraços

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  6. Olá.
    Critério 13 - PARANA BANCO e GRAZZIOTIN sempre estão recomprando ações.

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    1. Paraná é um nome nada criativo, apesar de não ser tão ruim, kkkkkkkkk.

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  7. Nome estranho e esquecida pelo mercado - PARANÁ BANCO.

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  8. Oi! vejo pelo seu blog que és um visionário, parte da pequena parcela da população que saiu da cadeira e foi atrás de mudança!
    Por isso queria te fazer um convite para um projeto que pode te ajudar muito na sua jornada! Não consegui encontrar e-mail de contato então, para mais detalhes, peço que mande um e-mail para roiz.js@gmail.com

    abraços, Jessica Rodrigues

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    1. Olá Jéssica,
      Não sou visionário. Sou tão normal quanto qualquer um. A diferença é que consegui reservar uma pequena parte de meu tempo para me dedicar um pouquinho aos investimentos.
      Abraços

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