quarta-feira, 9 de abril de 2014

Análise e opiniões - BRFS3 e MDIA3 - Gráficos

Esta é a segunda parte da postagem referente à análise e opiniões da BRF Foods e M. Dias Branco, importantes empresas do setor de alimentos da bolsa. Se você não leu a primeira parte, clique AQUI.
Lembrando que as informações prestadas nesta postagem não são suficientes para que você tome a decisão de comprar, vender ou manter alguma destas empresas. No entanto, está aberta a possibilidade de discutirmos informações relevantes sobre seu desempenho ou perspectivas futuras do setor ou de determinada empresa.

Gráficos comparativos
Antes de começarmos a ver os gráficos, é importante que você tenha em mente que a atual BRF Foods é uma nova denominação da antiga Perdigão. Em julho de 2009 foi aprovada a incorporação da Sadia mediante troca de ações. Com isso, a partir deste ano os balanços refletem a combinação dos dois negócios. Quando for olhar para os gráficos, enxergue que os resultados anteriores a 2009 são apenas da Perdigão e que os resultados a partir deste ano são da BRF Foods.
Nos gráficos a seguir você observará que o período da BRF será anterior que o da MDIA. Isso se deve exatamente a sua existência na bolsa. A BRF está há muito mais tempo que a MDIA, e por isso dispõe de mais dados para serem analisados.
Nos comentários dos gráficos abaixo, sempre quando há referências a porcentagens de crescimento ao longo do tempo, considere que o cálculo foi realizado em relação às médias dos três primeiros e três últimos anos.

Receita Líquida

Quando olhamos estes gráficos, devemos observar principalmente as curvas, não os valores. Ao atentarmos a este fato, podemos observar que o profundo crescimento das receitas BRF Foods, principalmente após 2008.
Entenda também que só porque o crescimento das receitas de BRF foi não significa que o da MDIA tenha sido ruim. No período analisado, o crescimento médio anual da receita da BRF foi de 26,3%, enquanto que da MDIA foi de 17,7%, o que não é tão bom quanto o da BRF, mas não deixa ter seu mérito.

Lucro líquido
Após deduzirmos os custos, as despesas e o impostos da receita líquida, temos os lucro líquido. Os lucros são a razão de existência de qualquer empresa, e por isso devem ser analisados.
Podemos observar um crescimento expressivo do lucro líquido da BRF, principalmente após sua reestruturação em 2009. Entretanto, nota-se que a empresa tem um lucro líquido bastante oscilante.
A MDIA, apesar de não ter um crescimento de lucros tão expressivo, possui uma maior previsibilidade em seus lucros. Com exceção de 2007, em nenhum ano a empresa obteve diminuição de seus lucros.
No período analisado, o crescimento médio anual de lucros da BRF foi de 20,2%, contra 28,9% da MDIA.

Margem bruta e líquida
São importantes para medirmos a eficiência da empresa, podendo ser um bom indicativo para a sua resistência às crises. Maiores margens significam que a empresa consegue vender seus produtos ou serviços a um preço bem acima de seus custos.


Podemos observar que tanto a margem bruta quanto a líquida da MDIA, em todos os anos, sempre esteve acima das margens da BRF.
Podemos considerar o setor de alimentos como um setor defensivo por ter um produto que é consumido continuamente, independente das condições econômicas. Alimento é uma necessidade básica do ser humano. Mas este setor também é conhecido por trabalhar com margens apertadas.
Comparando com o restante do setor, a margem bruta das duas empresas não está ruim. Entretanto, é na margem líquida que há um grande contraste. MDIA, com uma margem média de 11%, possui uma das maiores margens líquidas do setor (se não for a maior), boa parte devido a sua verticalização e aos incentivos fiscais. Por outro lado, BRF, com média de 3,6%, possui uma das menores margens entre as empresas do setor que lucram.

Patrimônio Líquido

Observem que o grande salto patrimonial da BRF Foods está contrastando com a leve subida da M Dias Branco. Mas há explicações:
As subidas em 2006 e 2007 foram causadas em maior parte por subscrições, no valor de 800 Mi e 900 Mi respectivamente. Para quem não sabe o que é uma subscrição, basicamente é quando a empresa emite novas ações para vendê-las no mercado a fim de captar novos recursos. O grande salto de 2009 é explicado pela reestruturação Perdigão-BRF. Após este momento a empresa aumenta seu patrimônio devido as suas operações.
O crescimento do patrimônio da MDIA é exclusivamente devido às suas operações. Nem o IPO que a empresa realizou contribuiu para o crescimento de seu patrimônio devido sua natureza ser de oferta secundária.


ROE – Retorno sobre o patrimônio líquido
É basicamente o lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido da empresa. Muito investidor leva este indicador em consideração por mostrar a rentabilidade sobre o capital investido.
Podemos observar que o ROE da BRF está muito inconstante devido a dois aspectos que vimos nos gráficos anteriores: inconstância de lucros e aumento repentino de patrimônio. Particularmente eu apenas levaria em consideração o ROE do ano de 2010 em diante, quando a empresa passou pelo período de reestruturação e começou a colher resultados. Com isso teríamos um ROE na faixa dos 7%.
O ROE da MDIA deu um salto a partir do ano de 2007 devido ao seu lucro líquido ter subido mais rapidamente que seu patrimônio.

Dívida
Podemos observar que a dívida da BRF saltou no período, mas não podemos nos esquecer de que a empresa também ficou maior.
Normalmente o investidor observa a dívida juntamente com outros indicadores, como por exemplo os lucros ou o patrimônio da empresa. Como os lucros da BRF foram bem oscilantes, achei mais apropriado mostrar abaixo a relação entre a dívida da empresas com seu patrimônio.

Dívida / PL
Em relação a patrimônio, a dívida das duas empresas não apresenta níveis muito preocupantes.

P/VP
É a relação entre o valor de mercado de uma empresa e seu patrimônio. Muitos investidores utilizam este indicador como uma forma de verificar se a empresa está cara ou barata. Na teoria, quanto menor for o valor, mais barata seria a empresa. Particularmente não o uso, mas montei o gráfico para aqueles que gostam deste indicador.
Ambas as empresas tem seus preços cotando o dobro, triplo e até o quádruplo do que possuem de patrimônio líquido. Na maior parte do tempo MDIA possui P/VP maior que a BRF.

P/L
É outro indicador que muitos investidores utilizam (eu sou um deles) para avaliar o quão barata ou cara está a empresa. Seu resultado é uma divisão entre o valor de mercado da empresa e seus lucros. Na teoria, quanto menor for o valor, mais barata a empresa está.
Podemos observar que o P/L da BRF varia bastante, principalmente devido a seus lucros que também oscilam. Em 2009 ela apresentou um P/L de estonteantes 160, quando o seu valor de mercado (19 Bi) apresentou um valor bem acima de seus lucros (120 Mi).
Em geral, se excluirmos os P/Ls que estão na casa das centenas, a BRF apresentou um P/L médio de 26, enquanto a MDIA apresentou no período um P/L médio de 19,7.

Payout
É a porcentagem dos lucros que a empresa distribui a seus acionistas na forma de dividendos e juros sobre o capital próprio.
Podemos observar que a MDIA tem distribuído o mínimo possível de seus lucros a seus acionistas, principalmente de 2008 em diante. A BRF é outra empresa que, apesar de não distribuir o mínimo possível, também não costuma distribuir a maior parte de seus lucros, com exceção de 2008 e 2009.

Dividend Yield
É a divisão entre os proventos de um ano e o valor de mercado de uma empresa. Muitos investidores utilizam este indicador para ter uma ligeira ideia dos dividendos de uma empresa em relação ao preço que se paga por ela.
Normalmente P/Ls altos são acompanhados por DY baixos e é isto o que constatamos no gráfico acima. Definitivamente as pessoas que investem em empresas deste tipo não são atraídas pelos seus dividendos. BRF possui no período uma média de 2,1% contra 1,6% de DY da MDIA. Ambos os valores são baixos.

Crescimento ano-a-ano do Lucro líquido
Mostra o quanto o lucro líquido de um determinado ano cresceu (ou diminuiu) em relação ao ano anterior.
O crescimento de 2003 da BRF foi de 1400%, não devido ao ano ter sido maravilhoso, mas sim devido a 2002 ter sido medíocre, como você pode muito bem constatar no segundo gráfico desta postagem. Este crescimento estava perceptível no gráfico original mas ele distorcia a visualização de todos os outros anos, que ficaram impossibilitados de serem analisados a não ser que você tivesse uma lupa. O mesmo aconteceu com o ano de 2010, com aumento de mais de 500% dos lucros. Por isso diminuí o gráfico para visualizarmos melhor.
Podemos observar que, com exceção dos dois últimos anos e 2005, o crescimento da BRF foi marcado por grandes altas ou grandes quedas.

Crescimento ano-a-ano do Patrimônio Líquido
Mostra o quanto o patrimônio líquido de um determinado ano cresceu (ou diminuiu) em relação ao ano anterior.
Podemos observar na BRF o grande crescimento em 2006 e 2007, devido as emissões, e em 2009 devido a reestruturação. A partir deste ano seu crescimento patrimonial foi tímido. No mesmo período, o crescimento patrimonial da MDIA foi cerca de 13% ao ano.


Volume de vendas
Mostra a evolução das vendas de alimentos ao longo do tempo.
Podemos observar o grande salto de vendas da BRF, e não podemos dar todo o mérito à reestruturação. Em 2007 ela já vinha aumentando suas vendas. Observemos também que a partir de 2011 o volume diminuiu lentamente.
A MDIA possui um crescimento bem mais lento que o da BRF, mas constante.

Posição acionária
Mostra os donos das ações, ou em outras palavras, quem pode mandar e desmandar dentro das empresas.

Vemos que a posição acionária da BRF é pulverizada. Muitos fundos possui um pedaço da empresa, sendo alguns deles fundos governamentais com posições relevantes. Mesmo assim não é possível determinar quem dá as cartas dentro da empresa.
Na composição acionária da M. Dias Branco podemos ver que o Dibra FIP, cujo maior cotista é o Sr. Francisco Ivens de Sá Dias Branco, é o dono do tabuleiro e das peças da empresa.


Na próxima postagem veremos mais alguns gráficos e as considerações finais. Enquanto isso deixe seu comentário.

20 comentários:

  1. Ótima análise, ADP, só lembrando que nenhum dos fundos detentores da BRF são controladores.
    Abraço

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    1. Valeu, amigo. Que bom que tenha gostado.
      Abraços

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  2. ADP, o que acha do setor de madeira, onde atua a DTEX?

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    1. Rapaz, conheço nada deste setor. Não vou com a cara dele :)
      Abraços

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  3. AdP, parabéns mais uma vez, excelente artigo. Ainda estou começando a montar minha carteira de ações e por isso estou dando preferência para empresas que pagam bons dividendos. Se tivesse que escolher uma das duas, não escolheria: ficaria com as duas. Aguardo a continuação, abraço!

    http://ohaule.blogspot.com

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    1. Elas não são empresas que pagam bons dividendos, não. Pelo menos hoje é assim.
      Abraços

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  4. Posso até ser um idiota mas não consigo comprar uma empresa com o P/L de 40 P/VP de 3 e ROE 7%.

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    1. Leia mais sobre investimentos que você consegue.
      E P/L de 40 hj pode ser 20 amanhã, ou seja, não significa nada.
      Vc citam 3 indicadores que não querem dizer nada, mas enfim, é o teu critério para compra, então boa sorte.

      Covarde Anônimo

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    2. Posso ser idiota, mas não consigo comprar uma empresa com P/L de 0,2 e P/VP de 0,1

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    3. Vejo o preço da BRF como justo. Tem um monopólio no Brasil, e o fato de o sul do Brasil ter uma temperatura perfeita para a produção do frango(que é extremamente sensível) gera uma vantagem competitiva absurda para a empresa. O Brasil é o maior exportador de frango do mundo e caminha para tbm ser o maior produtor(hoje é o terceiro, atrás de EUA e China). Vamos observando e estudando.
      Abraço amigos.

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  5. Eu estava falando no caso específico da BRF. Não vejo como ela ficar com P/L de 20 nunca pois ela tem um crescimento limitado visto que já é gigante. Uma empresa com P/L de 40 mas menor e com crescimento forte até valeria a pena um investimento mas o risco também aumenta. Depende muito de qual empresa seria.

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  6. De onde foi retirado todos esses dados?

    Tudo o que está sendo feito é uma analise ou apenas apresentação de dados?

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    1. Os dados são disponibilizados pelas empresas e pela Bovespa. Alguns deles eforam calculados por mim, como histórico P/L, P/VP, margens, endividamento, dentre outros. Dá um trabalhinho consolidar tudo. Depois de cada gráfico eu deixo uma opinião.
      Abraços

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  7. AdP, muito bom estudo. Parabéns.

    Minha percepção é que a BRF ainda é um negócio muito instável. A entrada do Abilio Diniz me incomoda um pouco. Apesar de ele ser um grande empresário, não tenho certeza se isso pode significar algo de bom para a empresa e muito menos para os minoritários. Neste contexto a MDIA parece ser um negócio bem mais estável e consistente, inclusive para o minoritário.

    A BRF tem um perfil de crescimento mais agressivo e de forma alavancada enquanto a MDIA tem crescimento menor e é mais conservadora.

    Eu particularmente prefiro a MDIA, mas nenhuma delas está na minha carteira no momento.

    Parabéns pela postagem!

    Abraços,

    Blog Economicamente Incorreto
    http://economicamenteincorreto.blogspot.com.br

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    1. Porque não comprou alimentos ainda E.I? Tá caro? Ano passado foi ano das ações de faculdades, este ano pode ser das empresas de alimentos, temos indícios.

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    2. Poh Uó, perguntar se tá caro? Rsrsrs

      Na verdade eu já tenho ABEV e CRUZ que considero serem empresas melhores, e estão praticamente no mesmo setor, portanto não desejo concentrar mais aí. Mas escolheria MDIA em alimentos.
      Não vejo a BRF como um exemplo de gestão, apesar de ter marcas fortes e quase monopolio em alguns casos.
      Já a MDIA eu tenho uma queda, pois tinha uma fábrica da Adria praticamente no quintal da casa da minha mãe qdo eu era pequeno. Meu pai chegou a prestar serviços lá.
      Abraços

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    3. Vc é de São Caetano, EI? Tb sou, Nova Gerti.

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  8. Gostei do seu blog e de suas analises.

    Uma coisa que gosto de levar em consideração quando analiso empresas é o LPA não adianta a empresa aumentar o lucro se tem que dividir com mais gente, então isso é uma peça fundamental para o investidor analisar o seu retorno no longo prazo.

    Se olharmos o histórico de LPA da BRFS ele sai de 0,16 para apenas 1,23 agora olhe o LPA da MDIA e veja que ele sai no mesmo período de 1,00 para 4,63 o investidor que colocou a grana em MDIA em 2006 ganhou muito mais que o que investiu na BRFS, veja que apesar que a BRFS ser maior em tamanho não tem o mesmo poder de lucro que a MDIA.

    Outra coisa que vejo de positivo na MDIA é a margem que é algo fundamental em qualquer empresa principalmente nesse setor que podem sofrer com desaquecimento da economia. A margem da BRFS é muito gastigada pelo seu alto endividamento esses juros correm boa parte dos lucros. Uma empresa que precisa de mais 6 anos de lucro para pagar o endividamento é sinal de que esse endividamento saiu de controle e uma hora alguém terá que pagar essa conta, infelizmente sempre a bucha fica para nós minoritários.

    Tem mais alguns detalhes cruciais nessas duas empresas mas ficaria demasiadamente longo o reply para abordar tudo.

    Novamente ótimo trabalho do seu blog sempre trazendo conteúdo ricos e se afastando da manada.

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    1. Comentários pertinentes os seus, parabéns!
      Adoro ver gente inteligente e que estudou um pouco e vem compartilhar nos blogs um pouco do seu conhecimento.
      E parabéns por ter criado um nick. Faremos uma visita a seu blog.

      Covarde Anônimo

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  9. Analisando os gráfico com calma a conclusão é que o passado da MDIA é bem mais atrativo que o passado da BRFS, não há dúvidas que se o investidor quer ser conservador deve então escolher a MDIA. Mas e o futuro? Qual delas tem maior potencial de crescimento? Se tem algo que não sei fazer é detectar potencial de crescimento em empresa, se soubesse já estaria com futuro garantido. Depois me fala qual vc vê com mais potencial de crescimento.

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