quarta-feira, 15 de março de 2017

Explicando minha forma atual de investir – Parte 3



Esta série de postagem dedica-se a descrever um pouco sobre minha forma atual de investir. Na parte 2 desta série, que pode ser acessada clicando AQUI, falei sobre a margem líquida das empresas, um dos principais indicadores que observo, e como ela pode ser um importante indicativo de vantagem competitiva se comparada com as margens dos pares de setor. Além disso, comentei sobre a margem esperada de uma empresa em relação ao grau de complexidade do produto que ela produz. Inicialmente dividi as empresas em dois grupos: as indústrias e o comércio; sendo que se espera que as primeiras tenham margens maiores que as últimas.


O terceiro tipo de empresa – os serviços

Além de indústria e comércio, há uma terceira categoria chamada “serviços”. Não são o tipo de empresa cuja função é criar produtos ou revenda. São empresas que fornecem uma mão de obra ou uma facilidade para seus clientes. Como exemplo tem-se uma empresa que realiza frete.

Em relação à margem líquida esperada das empresas de serviço, a ideia é a mesma. Esta dependerá também do tipo de complexidade do serviço que a empresa oferece. Um hospital presta um serviço muito mais complexo, arriscado, caro e especializado do que uma transportadora. Logo, é esperado que o ramo de transportes seja mais concorrido e tenha maior dificuldade de repassar custos, fazendo com que este ramo tenha uma margem menor do que os hospitais.

Conforme falei na postagem passada, isso não significa que eu não investiria em transportadoras e colocaria todo meu dinheiro em hospitais. Isso significa que trabalho com margem esperada. Se ao verificar em uma gama de balanços que uma transportadora possui maiores margens que o hospital, dedicaria maior atenção a análise da transportadora e menor atenção ao hospital, pois a princípio isto demonstra que o hospital possui algo ruim ou a transportadora possui algo bom (ou ambos).

Entre estes três tipos de setores, particularmente prefiro investir em ordem indústrias > serviços > comércio.

Como disse na primeira parte desta série, não é preciso levar o que estou afirmando ao pé da letra. É preciso haver mente aberta para se evitar a perda de oportunidades. Apesar do comércio não ser um dos meus preferidos, há dezenas de casos de empresas do ramo que se expandem de uma forma assustadoramente rápida. Elas podem trabalhar com margens baixas, mas sua natureza menos complexa permite a expansão da empresa e sua presença em locais geograficamente distantes e dispersos, que quando feitos de forma correta garantem retornos extraordinários para seus acionistas. O mesmo vale para as empresas de serviço. Por isso, o que é relatado nesta postagem são preferências que podem ser facilmente relaxadas, e não dogmas indiscutivelmente imutáveis.


Necessidades e consumos frequentes – o negócio anticíclico

Outra particularidade que possuo na hora de escolher uma empresa é a preferência por aquelas que produzem produtos de consumo frequente: barbeador, hambúrguer, macarrão, biscoito, sabonete, cerveja, roupas, cremes, etc. Pensando da mesma forma, serviços de intermediação de cartão de crédito, provedores de internet e fornecedores de energia também representam necessidades básicas do ser humano. Na outra ponta, mantenho distância de produtos ou serviços que são comprados uma vez ou outra, ou que representam luxo. Brinquedos são um bom exemplo, já que normalmente compra-se apenas um (isso quando se compra), além de sua criação necessitar de um processo criativo que um produtor de margarina não precisa se preocupar. Entre investir na empresa que faz o jogo de tabuleiro Monopoly ou a que produz canetas, prefiro a última.


Dívidas

Endividamento é um indicador crucial que utilizo na escolha de ações. Dívidas, quanto menor, melhor. Endividamento tem representado a ruína e seu crescimento pode ser utilizado para deduzir se as coisas estão ficando ruins para a empresa. Pegue por exemplo a Eternit. A empresa saiu de uma situação confortável de 50 milhões de reais positivos em 2009 para uma situação negativa de 144 milhões em 2015. Ao mesmo tempo que a dívida se expandia, os lucros não subiram e ela tentou manter em vão seu programa de distribuição de dividendos, mas a cotação caiu. Isto mostra que o crescimento da dívida sem contrapartidas positivas é um sinal de que as coisas não estão indo bem. Se no ano da virada, quando a empresa deixou de ser credora para ser devedora, o investidor tivesse vendido suas ações, ele teria evitado uma dor de cabeça maior.

Um caso bem emblemático foi a OIBR4 com seus incríveis 20% de distribuição de dividendos. Sem nenhum esforço, uma inocente navegada pela aba de Relação com Investidores do site da empresa mostrava que ela não tinha pudor em dizer que pegava dinheiro emprestado justamente para pagar dividendos. Quando uma empresa faz empréstimos para pagar dividendos, mesmo que estes sejam de 20% em relação a cotação da ação, é um sinal claro de que suas ações precisam ser vendidas ou evitadas.

Agora compare com a M. Dias Branco, uma tradicional fabricante de biscoitos e macarrão nordestina, que saiu de um saldo negativo de 839 milhões em 2008 para 125 milhões positivos em 2016. Ou então a Ambev, tradicional conglomerado cervejeiro, que saiu de negativos 7 bilhões em 2008 para 3 bilhões positivos em 2016. Ambas empresas conseguiram expandir seus negócios, aumentar seus lucros ao mesmo tempo que reorganizaram seu endividamento.

Não é à toa que a poderosa e tão aclamada Petrobras, que saiu de 2007 com um saldo devedor de 24 Bi em 2007 para 325 Bi em 2016 anda tão mal das pernas. Pode-se culpar a corrupção e a queda do preço do petróleo, mas com certeza pegar um absurdo de dinheiro alheio contribuiu imensamente para sua situação atual.


Empresas pequenas – dívida tem que ser baixa ou nula

Endividamento é mais importante ainda quando nos referimos às empresas pequenas. Empresas grandes possuem maiores patrimônios, acesso a crédito mais barato e a possibilidade de encontrar possíveis interessados em participar de uma possível emissão de ações. Já as pequenas têm menor acesso ao crédito e não contam com tanta credibilidade no mercado. Logo, endividamento baixo ou inexistente é muito importante para empresas pequenas.

Veja por exemplo o caso da HAGA4, uma empresa localizada no interior do estado do Rio de Janeiro, produtora de fechaduras e cadeados. Quando se fala em cadeado, Haga não é uma marca que vem a sua cabeça, correto? Pensamos logo em Papaiz ou Pado (a primeira adquirida por um grupo sueco em 2015 e a segunda uma empresa brasileira fechada). Entretanto, mesmo com produtos de qualidade duvidosa e apresentando patrimônio líquido negativo, a empresa vem consistentemente, ano após ano (há mais de 10 anos), como um trabalho de formiguinha, diminuindo seu endividamento e aumentando seu caixa. Isso mostra que a empresa, por mais que não tenha produtos de qualidade, está preocupada com sua sobrevivência e saúde financeira. O mercado valorizou suas ações em 129% nos últimos meses.

Alguns podem argumentar que é possível analisar a qualidade do endividamento, pois existe a dívida boa e a dívida ruim, e que algumas empresas contam com receita certa, como por exemplo as do ramo elétrico e de concessão de rodovias. A grande verdade é que analisá-las é algo complexo, e mesmo a dívida “boa”, quando feita em grande quantidade, pode derrubar uma empresa. Basear-se pelo número puro da dívida, além de mais simples, pode ser o mais adequando.

Bem pessoal, vou dar uma pausada por aqui e continuo na próxima parte. Para acessá-la, clique AQUI.


Enquanto isso, deixe seu comentário.

Lembrando que as ações mencionadas nesta postagem são apenas exemplos. Não são recomendações de compra/venda/manutenção.

31 comentários:

  1. adp, vendo seus posts, percebo o quão expert você é no assunto de finanças e análise de empresas, porém isso não se traduz em benefícios e aumento de renda. Existe muita gente incapaz no mercado ganhando muito mais que você, enquanto você está aqui esquevendo no blog sobre teorias. Típico do mundo acadêmico com muito conhecimento e pouca remuneração. Vá atrás de um emprego que te pague de 10 a 15 mil reais por mês que você tem potencial. Quando tiver isso, seus aportes serão tão grandes que não precisará se preocupar tanto com 0,1% a mais na rentabilidade.
    []s

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    1. Anônimo, acho que vc se equivocou. Há pessoas no mercado ganhando mais que o AdP, mas essas pessoas fazem trade com opções, apostam as calças e um dia se ferram totalmente.

      de outro lado, quem segue a Análise Fundamentalista sabe que vai ganhar, pode demorar um pouco, mas é muito mais certo e mais seguro que ficar apostando feito alucinado.


      Gosto muito da maneiro do AdP analisar empresas. Aprendo sempre que venho aqui. Você, Anon de 10:33, devia tentar ler mais livros bons de Contabilidade e Análise Fundamentalista.

      Parabéns, AdP.

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    2. Em certa parte o anônimo das 10:33 tem razão.
      Existe gente com menos capacidade que ele ganhando mais.
      Existe também os que ganham menos.
      Me incluo nesta de medíocre também, pois me considero um cara inteligente, para um tipo de inteligência, mas que em algumas áreas da vida não está melhor como outros com menos capacidade.
      A vida é assim.
      Acho que o AdP está tranquilo com o que ele é e desempenho.
      Nunca vi aqui ele reclamar por não performar melhor do que o Poney por exemplo...kkk

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    3. Em todo fechamento mensal faço questão de avisar que sou uma pessoa comum, como qualquer outra. Não sou nenhum expert. A diferença é que no deslocamento de meu trabalho para casa, enquanto algumas pessoas gostam de ficar olhando o Facebook pelo celular, eu leio livros do tema que gosto. Nesta série de postagens citei indicadores como margem líquida e endividamento, coisas que qualquer um com contabilidade bem básica poderia olhar em 2 minutos em um balanço. Não tem nada de expert nisso.
      Além disso, o fato de gostar de ler coisas e de compartilhar minhas ideias com os leitores não é um fator excludente de estudar outras coisas e trabalhar para aumentar meus aportes. Uma coisa não excluir outra. Encaro investimentos como uma paixão e não vou deixar de fazer isso, até porque não me atrapalha em nada nem nos projetos pessoais que tenho.
      Para finalizar, a pessoa que entra na bolsa com a ideia de arrebentar a boca do balão, com a ilusão de ter milhares porcento de rendimento em um curto espaço de tempo, pode quebrar a cara. É óbvio que dentro do espectro de pessoas da bolsa, há aquelas que conseguem retornos maiores com pouco estudo. Mas isso seria motivo para parar de estudar? Tem gente que ganha a vida fazendo vídeo de Minecraft e ganhando mais dinheiro do que muito engenheiro por aí. Isso então é motivo para largar os estudos? Isso não faz sentido e reprovo essas ideias que sugerem a disseminação da ignorância. A pessoa precisa aperfeiçoar e evoluir conforme o tempo passa.
      Abraços

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    4. Ao anon 13:17,
      "de outro lado, quem segue a Análise Fundamentalista sabe que vai ganhar, pode demorar um pouco, mas é muito mais certo e mais seguro que ficar apostando feito alucinado."
      Sinceramente fico preocupado quando associam análise fundamentalista (AF) com 'saber que vai ganhar', ou quando sugerem isso. Na bolsa tem que ter cuidado quando utilizamos o termo 'certo'.
      Creio que o que a AF faz é aumentar a nosso favor a probabilidade de selecionar empresas que performarão acima da média. Mas dar certeza ela não dá não.
      Abraços

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    5. adp aqui é o anonimo das 10:33, não me leve a mal mas foi uma critica construtiva. não quero entrar na sua vida pessoal, mas acho que seus aportes são muito pequenos pela sua capacidade. faz 5 ou 6 anos que acompanho seu blog, com 2 ou 3 postagens por mês, e vejo que seus aportes continuam fracos. talvez você não esteja se valorizando no mercado de trabalho e eu sei do que estou falando. tem muito mané no mercado de trabalho ganhando 10 mil reais e me parece que você não ganha isso. Voce tem potencial para ganhar ainda mais, vai por mim.
      você tem toda a liberdade para dedicar o tempo e esforço que quiser na escolha de empresas e na rentabilidade da carteira, mas e os aportes, vai ficar mais 10 anos assim? você acha que a independencia financeira vai chegar neste ritmo?

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    6. Eu entendi, anon. Desculpe-me se pareci grosso. Você está certo, meus aportes são o mesmo há anos. Mas estou com alguns planos em progresso. Dependendo do lado que pender, meus aportes podem aumentar ou talvez eu terei que retirar uma grossa fatia dos meus investimentos.
      Abraços e sucesso

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    7. Pelo que sei, o AdP já busca alcançar essa melhoria de renda a propiciar maiores aportes, mas na carreira publica isso só ocorre quando se consegue um cargo de chefia, normalmente por influencia e pouco por mérito, ou quando se é nomeado em outro concurso, outra carreira melhor remunerada. Buscar um salário nesse patamar na iniciativa privada, saindo de uma carreira publica, é tão ou mais arriscado do que investir na bolsa. Tá certo que existe uma tendencia de sucateamento dos serviços publicos, a estabilidade e até a certeza do recebimento dos vencimentos em dia estão sendo aos poucos mitigados, mas penso que há ainda instituições publicas que tem potencial de manter seus servidores com certa tranquilidade, ao menos no médio prazo. Assim, penso que o AdP é uma pessoa bastante centrada, a ponto de pesar as dificuldades de obter uma melhoria significativa nos vencimentos e planejar sem pressa em como obter, sem precisar correr riscos desnecessários, trocando o certo pelo duvidoso.

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  2. Publicação TOP.

    Marquei nos meus favoritos.

    Abs.

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  3. Mais uma vez, excelente post, AdP. Eu tinha uma noção dos aspectos que vc falou sobre margem e dívidas e quero analisar de forma mais cautelosa nas minhas próximas compras. Usarei os seus posts como referência para análise.

    Abraços.

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  4. Olá ADP , continue postando suas experiências conosco , sempre aprendo algo em seus posts , foi aqui inclusive que achei um bom guia para declarar meu IR , é aqui cresce cada vez mais quando leio um novo POST , obrigado pelo compartilhamento de sua paixão que , para mim , é muitíssima valia . Alias acha que um patrimônio de 600 mil é um valor razoável ?

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    1. 600k é bastante dinheiro. Bom pra colocar pra trabalhar.
      Abraços

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    2. rsrsrsrsrsrs , não que eu tenha esse valor , mas segundo meus cálculos e o valor para a minha semi-independência financeira , um abraço e sucesso .

      Guto3008

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  5. Cara, espero que esta série continue. Um detalhe ou outro ajudam a nos esclarecer. Alguns vou tomar para mim. Parabéns.

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  6. Ah, quando assunto é dívida, sempre quero saber mais.
    Sei que é difícil entender alguns por quês de se endividar, mas apenas o ato de se endividar, mostra muito o tipo de empresa e o que ela almeja.
    Acho que bons exemplos são JBS e BRF. A primeira sempre teve a cultura de trabalhar endividada para fazer aquisições e aumentar receita, a segunda começou a fazer o mesmo desde que Abílio assumiu o Conselho da Administração e o patrimônio estagnou, resultado estagnado.
    Por outro lado, você pega uma Cielo que a preocupação é outra, além da receita, que conseguiu deixar mais robusto o fluxo de caixa e a dívida que tinha explodido, já está equilibrada novamente.
    Muito bom post, ADP. Continue assim e se os outros reclamarem, é porque não chegam no seus resultados que apresenta todo mês e muito menos entendem a sua inteligencia nesse mundo de investimentos.
    Grande abraço!

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  7. Nossa aporte de 6k fraco? O cara não deve aportar nem metade disso, pq se ele fizer o dobro disso muito estranho estar pegando dicas aqui kkk parabéns ADP não dá moral nao

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    1. Meu último aporte foi esse mas a média mensal fica entre 1500 e 2000 reais.

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  8. Olá ADP, seria possível me inserir na sua blogroll? Seria bacana. Se não der, entendo.

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