sexta-feira, 19 de abril de 2019

É chegada a hora de vender minhas BAUH4


Há alguns anos, fiz uma postagem comentando os motivos de eu ter adquirido ações da BAUH4. É uma postagem que vale a pena ser lida, inclusive seus comentários.
Resumidamente, os motivos de eu ter me tornado sócio da empresa foram um conjunto de fatores que ela apresenta e que combina com meu perfil: Baixo valor de mercado; lucratividade em alta; endividamento zero; caixa alto; boa margem no setor; produto simples, de fácil entendimento, não cíclico e de compra contínua; e empresa fora dos holofotes do mercado. Considero que estes são fatores importantes para a identificação de empresas multiplicadoras. Na realidade, meu sonho era que esta empresa crescesse a ponto de ser um player importante no mercado nacional de alimentos, com um tamanho 10 vezes maior do que o atual.

Mas não podemos viver só de sonhos, temos que considerar a realidade.

A realidade é que, apesar de possuir uma série de fatores que considero positivos, ela possui um que me desagrada imensamente: falta de Tag Along. Como vocês sabem, o Tag Along permite que, caso haja mudança de controle da empresa, o comprador ofereça um percentual sobre o valor pago ao restante das ações com Tag Along. Então, por exemplo, empresas que estendem 100% de Tag Along aos preferencialistas garantem que, em caso de controle, o comprador ofereça a eles a compra de ações pelo mesmo preço que pagou para ter o controle da empresa. Há Tag Along com porcentagens menores, mas no caso das ações preferenciais da Excelsior (BAUH4), não há qualquer Tag Along.

Sabe-se que o controlador da Excelsior (BAUH4) é a JBS, uma gigante do setor. A JBS é imensamente maior que a Excelsior, gigante a tal ponto que pode acontecer um dia em que um executivo tenha algum sonho de madrugada e de sua cama mande um email para que a administração inicie os preparativos para fechar o capital da Excelsior, operação esta que mal faria cócegas na estrutura financeira da JBS. Brincadeiras à parte, caso a JBS decida fechar o capital da Excelsior, seria algo ridiculamente fácil. No pregão imediatamente seguinte a divulgação de fechamento da empresa, suas ações despencariam, pois ninguém quer segurar ações de uma empresa cujo controlador não possui qualquer obrigação de adquirir (em algumas ofertas o controlador até oferece compra de ações sem Tag Along, mas a preço de banana).

Pois então, deixando o sonho de lado, temos que pensar nos riscos envolvidos. Nos comentários da postagem de compra de ações da BAUH4, deixei claro que minha aquisição era temporária, esperando o momento oportuno de venda. Pois bem, este momento chegou.

Operacionalmente a empresa é a mesma. Na realidade, sua operações estão melhores do que quando comprei. Caixa maior, dívida ainda zero e lucro líquido em alta. Entretanto, estou em uma fase de diminuir minha exposição em renda variável para alocar um pouco mis na renda fixa, e a venda da Excelsior foi devido ao descompasso entre seu preço e os fundamentos.

Há pessoas que dizem que estabelecer preço de ações é algo extremamente complicado, mas há formas básicas que dão ideia geral se uma ação está passando do ponto ou não. Uma dessas técnicas é a mesma que utilizamos no nosso dia a dia: a comparação de preço com seu histórico. Por exemplo, não tenho a menor ideia de como se avalia a fundo o preço de um tomate. Não sei como se planta, como se colhe, solo apropriado, nada. Tem gente que pensa até que tomate cresce em árvore. Entretanto, passo minha vida toda comprando o quilo de tomate na faixa de três a quatro reais, um preço condizente, inclusive, com o de outros vegetais similares. Então, se subitamente vejo o mercado vendendo tomate por oito reais, posso considerá-lo caro. Não é preciso ser nenhum especialista nem ser formado em agronomia para chegar a esta conclusão. Normalmente espero a temporada do tomate caro que aos poucos ele volta a seu preço normal.

Considerando isso, BAUH4 é o tomate que eu considero que o mercado está super avaliando. Só que quando avalio o histórico de preço de um ativo, não considero analisar a faixa de preço absoluto da ação. Uma ação que custava 5 reais e agora custa 20 não significa que ela saiu de sua faixa de preços, pois a empresa hoje pode ser 4 vezes mais lucrativa que anteriormente. Mas há uma faixa de preços que percebo que o mercado costuma respeitar: a faixa histórica de P/L.

Quando avidamente analiso as informações de uma empresa, costumo anotar a faixa de P/L que suas ações variam. Por exemplo, como vou mostrar para vocês abaixo, o P/L da BAUH4 costuma variar entre o 5 e o 8. Atualmente está em 13 e subindo:


Considero isto uma discrepância, de acordo com o histórico. Pequenas alterações da faixa podem ocorrer vez ou outra (como por exemplo, P/L indo para 10 mas com o tempo voltando para a faixa habitual), mas não uma diferença deste tamanho.

Claro que há a possibilidade do mercado ter alterado a faixa de P/L da empresa, só que esta mudança é um fator bem incomum. De cabeça só me recordo da Cielo, que em 2011 ficava na faixa entre 7 e 10, mas depois alterou sua faixa para entre 15 e 22. De forma intrigante, hoje ela parece ter voltado para sua “faixa original”.

Se você tiver curiosidade, pense em planilhar o P/L histórico de suas empresas. Você verá que ela trabalha dentro de uma faixa. O fato de uma empresa ter P/L alto não significa necessariamente que a ação é cara, pois uma análise depende de muitos outros fatores. E o P/L histórico também colabora com esta afirmação. Uma empresa como a MDIA3, que hoje está com P/L de 18, possui uma faixa neste nível mesmo, entre 15 (quando, digamos, está “barata”) e pode chegar até a uns 22 (quando, digamos, está “cara”). Mesmo que a empresa cresça, lucre e a cotação suba, esta faixa de preços está respeitada. 

Ambev é outra que sempre trabalhou em uma faixa de P/L alta, na casa dos 20, mas deu retornos maravilhosos. Hypermarcas respeitou a faixa mesmo quando estava mal das pernas. O que deve-se atentar é quando o P/L se destoa muito de sua faixa histórica.

Fico pensando nos motivos da BAUH4 ter destoado tanto de seu P/L histórico. A empresa vem crescendo, mas não a um ritmo tão grande. Segundo meus cálculos, o crescimento dos lucros desde 2012 é de 4% ao ano, um valor decepcionante. Para se achar uma valor maior que isso, só se o investidor quiser trabalhar sobre os valores de 2015 até hoje, ignorando o passado da empresa, mas aí já consideraria que o investidor quer espremer os números para dar uma resposta que ele quer ver. O último lucro, que esperava de 11 Mi, foi de 10. Não vejo explosão de lucros nos próximos anos, a não ser o costumeiro crescimento habitual.

Mesmo assim, espero que esteja acontecendo algo. Sei que há fundos entrando pesado na empresa, o que move sua cotação. Mas isso não é suficiente. Como sardinha, ao invés de uma OPA, seria maravilhosos se houvesse uma espécie de cisão, com a JBS vendendo a mercado as ações. Alguém me belisque, preciso voltar à realidade.

A realidade é que o que escrevi nos últimos dois parágrafos é pura conjectura de sardinha, e o fato é que os preços não estão condizentes com o costumeiro. Trabalhando com fatos, vendi parte das ações no mercado. Ações compradas a R$10,37 e vendidas a R$25,20, fora os dividendos recebidos no período. Vendi parte pois não quero passar da faixa de imposto de renda de 20k. Sou sardinha, mas não tanto, rs.
No fundo, esta ação foi uma clássica prova da máxima “maiores riscos, maiores retornos”.

E você, gostou da postagem? Deixe nos comentários.

Atenção: não sou analista de mercado. Isto é apenas um blog pessoal. Não há recomendação de compra, venda ou manutenção das ações citadas ou omitidas nesta postagem.

34 comentários:

  1. Olá ADP, muito bom. Gostei da sua forma de analise sobre estar caro ou barato. Eu por outro lado confesso ainda não ter parâmetros para uma decisão dessas. Talvez eu use seu post como um ponto de partida.

    Abraço e bom feriado!

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    1. Olá IInglês, sempre bom vê-lo por aqui.
      Esta é apenas uma das formas. Achei muito discrepante o disparo de P/L considerando o histórico. Vamos ver o que vai acontecer daqui para frente.
      Abraços e sucesso

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  2. Depois do que a MPLU3 aprontou comecei a olhar com mais afinco a governança das empresas nas quais quero investir

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    1. Olá Diego,
      A governança adiciona camadas de proteção, mas se o controlado estiver mal intencionado, não adianta, vai levar fumo mesmo que a empresa esteja no Novo Mercado. Vide as empresas X.
      Abraços

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    2. Sim, mas agora não me contento somente com tag-along mas vou lendo o estatuto social, composição acionaria e mais um pouco a pesar que a segurança maior para nos sardinhas vai ser a diversificação e não somente em setores mas em classes de ativos (Fiis, TD, RF, Cambio, imoveis so para citar os mais notorios)

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  3. Boa postagem, AdP. Bom para quem, assim como eu, está começando e não tem experiência.

    Abraço.

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  4. É chegada a hora de vender CIEL3 tambem?

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    1. Hora boa de ter vendido CIEL3 foi na época que vendi as minhas:
      https://alemdapoupanca.blogspot.com/2016/01/mudancas-na-carteira-venda-de-cielo.html

      Creio que a pergunta agora seria se é hora de recomprar Cielo.
      Abraços

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    2. Pelo visto ainda não. Margens continuam derretendo. Vai sangrar até quando ?

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  5. A plataforma do site Pense Rico é bem legal para acompanhar os dados fundamentalista das empresas.

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  6. Adp, qual tipo de ferramenta ou forma que usas para tirar o pl medio ? Queria muito tirar o pl medio para usar como indicador de entrada. Um abraço!

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    1. O plataforma pense rico tem P/L histórico e outros indicadores históricos também bem completa.

      https://plataforma.penserico.com/dashboard.pr

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    2. Eu pego os dados necessários no site da Bovespa: Lucro líquido anual, quantidade de ações e preço da ação no último dia de cada ano. Planilho estas informações e calculo.
      A PenseRico mostra isso em gráficos. O dela bateu com o meu, com exceção de 2017, se não me engano.
      Abraços

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  7. Adp, também queria saber como faço para descobrir de uma forma simplificada o P/L médio das empresas?

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    1. Pense rico tem o P/L Histórico.

      https://plataforma.penserico.com/dashboard.pr

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  8. Como dizia o Zé MOBRAL, guilhotina nela.
    Sucesso, abraço.
    Bagual

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  9. Ótima operação de Value Investing, comprar uma ação com está com preço relativamente baixo com margem de segurança e vender quando sobe muito.

    De 10,37 de preço aquisição para 25,20 são 143% de lucro é fantástico. Penso que um dos motivos, foi que a bolsa subiu bastante está em ciclo de alta levando de muitas ações para cima.

    A analise do P/L histórico ou do P/VPA histórico, funciona muito bem em alguns casos, comprando quanto tem múltiplos históricos baixos e vendendo quando tem múltiplos históricos altos.

    Fez bem em vender menos de 20 mil, assim fica isento.

    Abraço e bons investimentos.

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    1. Olá DIL, sempre bom vê-lo por aqui.
      Pretendo vender minhas restantes no mês que vem, e ver a possibilidade de desfazer de mais ações.
      Abraços

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  10. Muito bom o texto, ADP.
    Realmente, não existe total segurança em bolsa. O que é considerado bom num momento pode não ser em outro.

    Já vimos nos últimos meses a interferência negativa de controladores em SMLE3, MPLU3 ou mesmo a ETER3 e que prejudicaram bastante os minoritários.

    Abraço.
    Volverine

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    1. Olá Volverine,
      É verdade. Gosto muito da BAUH4 e queria poder arrastá-la por décadas, pois vejo um imenso potencial na ação. Mas ela possui um risco que me incomoda muito, então só seguro enquanto tiver com um desconto apropriado. Se ela voltar para sua faixa de preços habitual, quem sabe eu volto.
      Abraços

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  11. ADP, parabéns pelo lucro.

    O motivo de se expor cada vez menos em RV é por acreditar que o mercado estar para entrar em Bear?

    Abraço.

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    1. Olá Lanlico,
      Um pouquinho disso, mas é mais pela possibilidade de precisar deste dinheiro daqui a alguns meses, sem o risco de queda abrupta até lá.
      Abraços

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  12. Sensacional a analogia do tomate !

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  13. Muito bom AdP! Hoje os que te criticaram devem estar pagando a língua rs
    Acho que vc deveria manter uma % ainda, a empresa continua pequena <R$150 milhões
    Essa mudança no P/L pode ser apenas um ajuste, uma antecipação de que o lucro dela esse ano vai melhorar consideravelmente. Talvez ao final desse ano a gente veja que o lucro dela dobrou, como ela é pequena talvez não fosse tão absurdo ver o lucro passar de 10 pra 20 milhões e quase que manter o P/L histórico
    Só o tempo dirá rs
    Abraço

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    1. Olá Alexandre,
      Já fui muito criticado por aqui, rs. Normal.
      Estou achando esta movimentação estranha. Iria vender minhas ações restantes, mas acho que vou então segurá-las mais um pouco.
      Abraços

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  14. Fala AdP! Muito bom post. Eu comecei a mexer no mercado de ações, fiz algumas cagadas por fazer as coisas no impulso kkkkkkkkkk... vou explicar melhor no post de atualização mensal, mas é isso aí mesmo, tem horas que você tem que aprender tomando naquele lugar, para ser mais humilde e estudar com afinco. Um abraço!

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    1. O Sr Mercado ensina muita coisa na dor, kkk. Quem nunca aprendeu nada com ele assim?
      Abraços

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  15. Comprar e vender baseado no P/L é uma bobagem. Se tivesse comprado 2 empresas com este nível de risco com o mesmo P/L na mesma data, hoje possivelmente estivesse com lucro em uma e prejuízo na outra, deu sorte que comprou uma e foi a que subiu.
    A história do tomate não se aplica em nada ao mercado de ações, tomate é um produto perecível, muito diferente de uma empresa, péssimo exemplo. continue comprando empresas como tomates e vai ficar nisso aí

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